terça-feira, 2 de junho de 2015

Memória Futura

Não passa um dia que não pense neles. Mas bastam-me as memórias, penso eu. Vou vivendo, vou existindo e tudo parece fazer sentido, a vida corre plena. Até voltar a vê-los. E logo se desfaz o novelo da indiferença que revela o que nunca deixei de ser, amigo deles.

Surgiram todos de uma vez, num banquete de cumplicidades difícil de explicar. O Pedro tornou-se PC e com a forma mudou-se também o conteúdo, uma metamorfose de carácter que não descaso da forma alegre e genuína com que nos fomos amando. O tempo fechou este ciclo e espalhou-nos pelo mundo. A tribo fez-se diáspora e as vidas tomaram caminhos diversos, como ramos que brotam de uma mesma raiz.

Mas não deixemos que a nostalgia nos domine e muito menos nos envergonhe. Não somos peças de museu para serem admiradas de quando em vez, mantidas em pedestais poeirentos e reverenciais. O futuro está à nossa espera e é nele que esta amizade pode encontrar novos caminhos e novas formas de honrar aquele passado.


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Pedro "PC"

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O estado das coisas (III)

Ah a efemeridade dos momentos felizes, centelhas incandescentes que pontuam a miserável existência dos derrotados da vida. Como ver uma paisagem de cortar a respiração enquanto o carro desgovernado se dirige para o abismo. É redentor o tanas.
Eu sei que há muito que depende de nós. Mas há um outro tanto que não. Não me posso queixar muito da minha vida até aqui: o rácio entre portas fechadas e janelas abertas prometia um futuro animador. Mas a fortuna tirou férias e não deu mais notícias.
Sim, estou vivo. E saudável. Não passo fome. Mas sem felicidade, sem gozo, sem júbilo isto não vale de grande coisa. Já fui o maior da minha rua, fui mesmo. Coisas boas, merecidas e imerecidas, caíam-me no colo. Nunca fui um tipo positivo, entenda-se. Só que senti durante algum tempo que não valia a pena ser negativo. Seria até desrespeitoso e ingrato da minha parte. Mas é sempre mais fácil lidar com o infortúnio dos outros. Ah, como é...

(Nunca imaginei que os meus escritos se tornassem tão melancólicos. Perdoem-me os leitores. Mas às vezes a pena põe a nu o que a voz insiste em calar. Prometo posts menos macambúzios de futuro.)
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Mudemos então de assunto, caramba. Já alguma vez ouviram The Divine Comedy? Ouçam.
O pop barroco que insiste ficar no ouvido e as letras, ora francas, ora sardónicas (mas sempre geniais) do senhor Neil Hannon são um tónico para esta alma atormentada que vos escreve.

Bom fim de semana. Vemo-nos por aí (ou por aqui).




quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O estado das coisas (II)


Já cantei a Wuthering Heights da Kate Bush no karaoke, já tive que deixar um produto para trás no supermercado por não ter dinheiro suficiente comigo, já deixei cair meia cerveja em cima de um estranho... As situações embaraçosas e aborrecidas são, em retrospectiva, uma óptima fonte de riso e escárnio. Este olhar jocoso ajuda-nos a encaixar situações passadas que não sendo boas fazem parte da nossa história. Sacode-se as nuvens negras daquilo e pronto, é só mais uma memória. Faz-se troça e evita-se assim a autocomiseração.

A autocomiseração é uma coisa danada. Para começar, é uma palavra grande e estranha como o caraças. Em segundo lugar, exprime a condição de termos pena de nós próprios. Que raio de sentimento para se ter, como se a pena direccionada aos outros já não fosse má e inútil que chegue, porque é que viramos este olhar mórbido e sombrio para nós próprios? Não consigo dizer ao certo mas tenho as minhas suspeitas. É que há situações más e tramadas que, começando pequenas e fáceis de gerir, se avolumam e prolongam no tempo. É como ir àqueles restaurantes all-you-can-eat, comer como um alarve num almoço que dura até ao jantar e acabar de digerir aquilo lá para o fim da semana. Tornam-se um banquete de negatividade.

E eu gostava de pedir o café (com cheirinho) e pagar a conta.

Não deixo gorjeta.


O estado das coisas (I)


A chávena já só tem um bocado de borra no fundo. Que bem me sabia outro café, sempre justifica um cigarro e são 20 minutos bem passados. Que se dane, vamos fazer refresh ao Gmail – pela décima vez hojee ver se cai alguma coisa.

Olha, a [inserir nome de empresa] respondeu. Na verdade já não me lembro quando mandei este, fica tudo um bocado nebuloso à 382ª tentativa.

*click, click*

Dear Pedro Costa, Unfortunately, after careful consideration and assessment with the recruiting team, we have decided not to proceed with your application at this time.

*Suspiro*

Bem, coffee and cigarette it is. Talvez faça uma ronda de procura de trabalho ou vá ao LinkedIn ver o que por lá há... Muito embora saia sempre de lá triste, a vida dos outros às vezes deprime-me. Nunca fui assim, só pode ser das circunstâncias.

Don't worry about a thing,
'Cause every little thing gonna be alright!

Já dizia o jamaicano. Ah Bob, eu tento não preocupar-me mas a esperança é inversamente proporcional ao tempo decorrido. É engraçado, não é? À medida que o tempo passa preciso cada vez mais de um recurso que por sua vez se vai tornando mais escasso. É engraçado como o c...


Olha, a luzinha verde da máquina ligou-se! Já posso tirar o meu café.