quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O estado das coisas (II)


Já cantei a Wuthering Heights da Kate Bush no karaoke, já tive que deixar um produto para trás no supermercado por não ter dinheiro suficiente comigo, já deixei cair meia cerveja em cima de um estranho... As situações embaraçosas e aborrecidas são, em retrospectiva, uma óptima fonte de riso e escárnio. Este olhar jocoso ajuda-nos a encaixar situações passadas que não sendo boas fazem parte da nossa história. Sacode-se as nuvens negras daquilo e pronto, é só mais uma memória. Faz-se troça e evita-se assim a autocomiseração.

A autocomiseração é uma coisa danada. Para começar, é uma palavra grande e estranha como o caraças. Em segundo lugar, exprime a condição de termos pena de nós próprios. Que raio de sentimento para se ter, como se a pena direccionada aos outros já não fosse má e inútil que chegue, porque é que viramos este olhar mórbido e sombrio para nós próprios? Não consigo dizer ao certo mas tenho as minhas suspeitas. É que há situações más e tramadas que, começando pequenas e fáceis de gerir, se avolumam e prolongam no tempo. É como ir àqueles restaurantes all-you-can-eat, comer como um alarve num almoço que dura até ao jantar e acabar de digerir aquilo lá para o fim da semana. Tornam-se um banquete de negatividade.

E eu gostava de pedir o café (com cheirinho) e pagar a conta.

Não deixo gorjeta.


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