Já
cantei a Wuthering Heights da Kate Bush no karaoke, já tive que
deixar um produto para trás no supermercado por não ter dinheiro
suficiente comigo, já deixei cair meia cerveja em cima de um estranho... As situações embaraçosas
e
aborrecidas
são, em retrospectiva, uma óptima fonte de riso e escárnio. Este
olhar jocoso ajuda-nos a encaixar situações passadas que não sendo
boas fazem parte da nossa história. Sacode-se as
nuvens negras
daquilo e pronto, é só mais uma memória. Faz-se troça e evita-se assim a
autocomiseração.
A
autocomiseração é uma coisa danada. Para começar, é uma palavra grande e
estranha como o caraças. Em
segundo lugar, exprime
a condição de termos pena de nós próprios. Que raio de sentimento
para se ter, como se a pena direccionada
aos outros já não fosse má e inútil que chegue, porque é que
viramos este olhar mórbido e
sombrio
para nós próprios? Não consigo dizer ao certo mas tenho as minhas
suspeitas. É que há situações más e tramadas que, começando
pequenas e fáceis de gerir, se avolumam e prolongam no tempo. É
como ir àqueles restaurantes all-you-can-eat,
comer
como um alarve num
almoço que dura até ao jantar
e acabar de digerir aquilo lá para o fim da semana. Tornam-se um
banquete de negatividade.
E
eu gostava de pedir o café (com
cheirinho)
e pagar a conta.
Não
deixo
gorjeta.
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